Alma do Rio

Alma do Rio Doação do IR Textos Bacias Hidrográficas Biofossa O Rio Doce Projeto de Lei 367/2006 Granito Dicas de Canoagem Livreto s/Pecuária Miss Ecologia 2006 Notícias Classificados

 

Doação do IR Textos Bacias Hidrográficas Biofossa O Rio Doce Projeto de Lei 367/2006 Granito Dicas de Canoagem Livreto s/Pecuária Miss Ecologia 2006 Notícias Classificados

 

Quebra de Paradigma: Granito, menor impacto ambiental do que a maioria dos materiais de construção.

Ao iniciarmos a construção de nossa casa (veja o dia-a-dia da obra no site www.paulorandow.com.br/ecologica), buscando escolher materiais e arquiteturas que promovessem menor impacto ambiental, deparamos com questionamentos que pareciam simples, mas que se tornaram complexos a medida que investigávamos mais profundamente os métodos de obtenção da matéria prima e seu processo de transformação.

O projeto arquitetônico de dois pavimentos buscou valorizar na parte de baixo a convivência social, ventilação, iluminação natural e a segurança, enquanto a parte de cima foi valorizada a convivência familiar, a vista, a ventilação e a iluminação natural.

Para o alicerce, ainda não havíamos descoberto o fator benéfico do granito e seguimos o padrão de construção atual com o uso de sapatas e baldrames de concreto.

Para as paredes foi adotado o tijolo modular de solo cimento, que evita a queima de árvores ou de combustíveis fósseis.

Para a laje foi utilizado sistema de vigas treliças de ferro e concreto, com isopor na substituição das lajotas de cerâmica, fixando assim o CO2 por centenas de anos e evitando queima de árvores ou de combustíveis fósseis.

No telhado foi utilizado telhas de fibra vegetal e betume, que por serem leves, reduzem em 50% o uso de madeiras, e não foi possível garantia de que elas viessem de fontes autorizadas pelo IBAMA. Apenas informaram que vieram do Pará, na região da Floresta Amazônica.

O uso de água do lençol freático para uso nas caixas de descarga com botões de sólido (6 litros) e líquido (3 litros) e tratamento dos efluentes por biofossa com irrigação subterrânea do jardim, com o bombeamento da água através de célula fotovoltaica conectada a uma bomba elevatória de 1.000 litros/dia, foi a opção escolhida, devido a localização da casa estar a 100 metros de uma lagoa que sofreu eutrofização ao longo de centenas ou milhares de anos de sua existência.

Ao cavarmos o poço utilizando técnica simplória (veja no site www.paulorandow.com.br/ecologica\muro.htm) encontramos uma zona de material orgânico em decomposição a cerca de três metros de profundidade, com forte cheiro de amônia. A água da lagoa é escura, próprio da presença de grande quantidade de matéria orgânica vegetal decomposta. Lançar os efluentes tratados no solo arenoso, permitindo oxigenação do efluente, de o mesmo ser retido pelo fenômeno de capilaridade quando o solo não estiver saturado de líquido, além de ter que atravessar uma camada de cerca de 50 cm de tufa produzida pela eutrofização, se tornou fator de segurança quanto ao uso da água recolhida a 6 metros de profundidade e lançada dispersa sob o jardim.

Desta forma, a água tratada e clorada é utilizada somente para o consumo humano, higiene pessoal, cozinha e área de serviço.

Foi adotado sistema de aquecimento solar da água do banho, cozinha e máquina de lavar.

Induzidos por um paradigma estético optamos, desde a concepção do projeto, pela utilização de cerâmica ao invés de granito, para o revestimento das paredes da cozinha, área de serviço, banheiros e pisos: grande engano.

Ao discutir a questão do revestimento do piso com vários amigos ambientalistas, percebemos que todos estavam induzidos a acreditar que a cerâmica era mais apropriada para a opção ambientalmente correta do piso, porém, já com grande parte do revestimento cerâmico comprado, surgiu em nossa mente o questionamento do dano ambiental da cerâmica.

No caso da areia branca, já sabíamos do mal que a extração causava em grandes áreas, sendo que em nosso estado, o Espírito Santo, um importante ambientalista foi assassinado a mando de mineradores de areia na região da restinga de Guarapari, onde em sua homenagem foi criado o Parque Estadual Paulo César Vinha.

A extração de areia branca ocorre em áreas onde, por milhares ou milhões de anos, partículas de quartzo liberadas pela rocha matriz foram acumuladas e sendo lavadas pela água da chuva ou de rios. As camadas são geralmente de baixa altura, obrigando o minerador a ampliar a área de extração horizontalmente, deixando o nível do solo baixo e alagáveis pela chuva, pois é normal que se encontre solo argiloso e impermeável logo abaixo da camada de areia.

A reflexão sobre a extração da areia nos levou imediatamente a perceber que a extração da argila para a produção de lajotas, telhas e revestimentos cerâmicos é igualmente danosa.

No caso da cerâmica, a região de extração ocorre nos vales, onde correm os rios, obrigando a retirada de matas ciliares e solo altamente agricultável.

Outro fator negativo é que a argila adequada para as cerâmicas são as mais finas, fruto de acúmulo de sedimentos ao longo da margem dos rios após ciclos de enchentes e vazantes.

A quantidade desses depósitos de sedimentos é reduzida, obrigando a retirada do material em extensas áreas superficiais.

Como a extração da argila ocorre no fundo dos vales, dificilmente são observadas pelas pessoas que passam pelas estradas, isto quando a extração ocorre próximo das vias públicas, o que geralmente não acontece. Veja matéria de dano ambiental de extração de argila no site http://noticias.ambientebrasil.com.br/noticia/?id=25879.

Quando partimos para a avaliação do impacto ambiental da exploração do granito, tivemos como referência duas pedreiras localizadas próximo de nossa obra: uma na Rodovia Darly Santos, no município de Vila Velha, e outra na rodovia BR101, no município de Serra.

Lembro-me quando menino que ao passarmos perto da pedreira em Vila Velha, ouvíamos vez ou outra o barulho da explosão para retirada da rocha, isto há cerca de 40 anos atrás.

Esta pedreira já existia antes do meu nascimento, e permanecerá ainda por dezenas ou centenas de anos, pois quanto mais se aprofunda a mina, mais granito se encontra. Sua extensão pode ser visualizada no Google Earth na latitude 20º 21’ 30” Sul e longitude 40º 19’ 30 Oeste. Sua extração atinge hoje um círculo com 750 metros de diâmetro.

Também a pedreira na BR101 no município de Serra já forneceu brita para a construção de boa parte da região metropolitana da Grande Vitória e conta ainda com potencial de extração por mais centenas de anos. Sua extensão pode ser visualizada no Google Earth na latitude 20º 10’ 25” Sul e longitude 40º 16’ 10 Oeste. Sua extração atinge hoje um círculo com 300 metros de diâmetro.

Neste caso, estamos falando de extração de granito para brita, pois foram as pedreiras que já conhecíamos e tomamos como base em nossa análise.

Aproveitando o acontecimento da VITÓRIA STONE FAIR, nos organizamos para visitar a feira de mármore e granito para podermos ampliar o conhecimento sobre o tema e buscar contato com mineradoras para compreendermos melhor o uso do granito para revestimento.

No estande da Corcovado Mineradora, conhecemos o granito branco batizado de Caravelas e nos informamos sobre sua extração, beneficiamento e custo. Observamos que a área do estande era próxima ao piso térreo de nossa construção e procuramos negociar o uso do mesmo em nossa obra após o término da feira, obtendo assim uma condição adequada ao nosso orçamento.

Fomos indicados a leitura de uma matéria publicada na revista Pedras do Brasil, edição 66 (fev/08) sobre a comparação do Ciclo de Vida de materiais de construção, o que contribuiu significativamente na compreensão do que buscávamos.

O processo de extração de matéria prima de diversos materiais de construção ocorre de forma a retirar minerais disponíveis na natureza para serem processados.

O vidro, o ferro, o alumínio, o cobre, o cimento, o gesso, a madeira, a cerâmica, a areia, o barro, a brita, as rochas ornamentais, entre outros materiais de construção, todos geram gases de efeito estufa em seu processo de extração, transformação e transporte. Quando comparados ao ciclo de vida, o granito ganha de forma impar de todos eles.

Extração de alumínio na Floresta Amazônica

Ao se debruçar sobre o tema do tamanho da área de extração em relação à quantidade produzida, o granito novamente ganha em eficiência.

Mas há um tópico que o granito tem seu maior mérito: abundância na natureza.

Toda a crosta terrestre é formada por rochas em seu subterrâneo, sendo os afloramentos das rochas os mais fáceis de explorar, minimizando os custos.

Em um longo tempo passado, no período da formação da crosta terrestre, os vulcões lançaram o magma que ao esfriar se tornou a rocha matriz, também chamada de rocha ígnea ou magmática.

Com a movimentação das placas tectônicas, muitas rochas sofreram processo de pressão, extrusão, afloramento ou afundamento, e nesse processo, devido ao aquecimento produzido pela pressão, os cristais que formam essas rochas sofreram alterações em suas organizações atômicas, promovendo o surgimento de rochas metamórficas, ou seja, que tiveram transformações em suas estruturas minerais.

Também ocorreram fragmentações sucessivas das rochas provocadas por intemperismos diversos, que geraram acúmulos de sedimentos nos vales em função da chuva e do carreamento dos rios, num processo de assoreamento gradativo de rios, lagos e lagoas. As camadas de sedimentos por sua vez, ao longo dos anos, se transformaram novamente em rochas, chamadas sedimentares, que também sofreram com as movimentações das placas tectônicas, algumas se transformando em rochas metamórficas.

Os afloramentos de rochas que vemos sobre a superfície da terra, geralmente escondem um volume imenso da mesma rocha na parte inferior.

Se observarmos o mapa da formação geológica da placa tectônica onde se situa o território brasileiro, veremos as diversas idades de formação destas rochas representadas pelas cores. Mas não queremos focar nas idades das rochas, pois os números são tão grandes que não conseguimos compreender ao compararmos com nossa idade média de vida.

Queremos neste mapa apenas observar que todo o território brasileiro está sobre rochas, e que em grande parte do território brasileiro ocorre afloramentos, ou seja, a rocha emerge nua, sem solo agricultável ou vegetação densa sobre os mesmos. São esses afloramentos que interessam a exploração das rochas para construção, e a abundância deste material é incomparável quando avaliamos os depósitos naturais de outras matérias primas, como a argila, a areia e diversos metais.

Diante do exposto, partimos para a construção de um quadro comparativo de materiais de construção para que pudéssemos visualizar nossas análises. 

Material

Mineral

Estoque na Natureza

Emissão GEE na Produção

Consumo H2O na Produção

Área de Extração

Ciclo de Vida

Brita

Rochas

Imenso

Baixo

Baixo

Pequena

Alto

Rochas Ornamentais

Rochas

Imenso

Baixo

Baixo

Pequena

Alto

Cerâmica

Argila

Médio

Alto

Alto

Grande

Baixo

Ferro

Hematita

Médio

Alto

Alto

Pequena

Baixo

Areia

Quartzo

Médio

Baixo

Baixo

Grande

Alto

Vidro

Quartzo

Médio

Alto

Baixo

Grande

Alto

Alumínio *

Bauxita

Baixo

Alto

Alto

Grande

Baixo

* Apesar de ser o metal mais abundante na natureza, sua extração é difícil por estar diluído em outros minerais.

GEE = Gases de Efeito Estufa

Analisando a tabela acima, verificamos que as rochas, seja para uso como brita, alicerces, muros ou para uso como revestimento de pisos e paredes, são os mais adequados ambientalmente do que os outros materiais da lista, seguido pela areia, que perde somente nos itens de estoque na natureza e em sua maior área de extração.

Os técnicos dos órgãos de fiscalização ambiental também sofrem da distorção de compreensão sobre o impacto ambiental do granito, e não os culpamos disto, pois o processo estético da extração é geralmente visível aos que passam perto da pedreira, enquanto a extração dos outros materiais é geralmente escondida da visão pública. Isto fez com que o setor de mineração de rochas se tornasse alvo das fiscalizações mais intensas, dificultando o setor de promover custos mais acessíveis para a população.

Por outro lado, a intensa fiscalização promovida no setor de rochas permitiu o desenvolvimento de práticas que minimizam os impactos ambientais, obrigando o minerador a cuidar dos mananciais, construir pilhas de rejeitos para serem ambientalmente recuperados como forma de compensação ambiental.

Como um bom exemplo disto, visitamos uma pedreira em Rui Barbosa na Bahia, onde o morro de rejeitos em que foram plantadas árvores, se tornou o único local com floresta, no raio de visão, da região.

De nossa parte, cabe a responsabilidade de divulgarmos nossas descobertas e ajudarmos a promover essa nova compreensão a respeito do granito, permitindo uma nova visão ambiental através da mudança de paradigmas.

 

Interlagos II, Vila Velha-ES, 02 de setembro de 2009.

 

Paulo Viana Randow

Filósofo e Ambientalista

Presidente da Ong Alma do Rio

www.almadorio.org.br

 

bulletGanhador do Troféu Biodiversidade – 2º Lugar do Prêmio Tião Sá de Educação Ambiental – Ano 2000
bulletConsultor da Lei 8.745 que obriga os estabelecimentos comerciais do estado do Espírito Santo a utilizarem embalagens plásticas oxibiodegradáveis para o transporte de mercadorias pelos clientes.
bulletConsultor do Projeto de Lei que obriga a construção de sistemas de transposição de peixes migratórios nas barragens nos cursos de água no estado do Espírito Santo.
bulletAutor do livro: A Alma e a Questão do Livre Arbítrio.

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