Quebra de Paradigma: Granito, menor
impacto ambiental do que a maioria dos materiais de construção.
Ao iniciarmos a construção de nossa casa (veja o
dia-a-dia da obra no site
www.paulorandow.com.br/ecologica), buscando escolher materiais e
arquiteturas que promovessem menor impacto ambiental, deparamos com
questionamentos que pareciam simples, mas que se tornaram complexos a medida que
investigávamos mais profundamente os métodos de obtenção da matéria prima e seu
processo de transformação.
O projeto arquitetônico de dois pavimentos
buscou valorizar na parte de baixo a convivência social, ventilação, iluminação
natural e a segurança, enquanto a parte de cima foi valorizada a convivência
familiar, a vista, a ventilação e a iluminação natural.
Para o alicerce, ainda não havíamos
descoberto o fator benéfico do granito e seguimos o padrão de construção atual
com o uso de sapatas e baldrames de concreto.
Para as paredes foi adotado o tijolo
modular de solo cimento, que evita a queima de árvores ou de combustíveis
fósseis.
Para a laje foi utilizado sistema de
vigas treliças de ferro e concreto, com isopor na substituição das
lajotas de cerâmica, fixando assim o CO2 por centenas de anos e
evitando queima de árvores ou de combustíveis fósseis.
No telhado foi utilizado telhas de
fibra vegetal e betume, que por serem leves, reduzem em 50% o uso de
madeiras, e não foi possível garantia de que elas viessem de fontes autorizadas
pelo IBAMA. Apenas informaram que vieram do Pará, na região da Floresta
Amazônica.
O uso de água do lençol freático para
uso nas caixas de descarga com botões de sólido (6 litros) e líquido (3 litros)
e tratamento dos efluentes por biofossa com irrigação subterrânea do
jardim, com o bombeamento da água através de célula fotovoltaica
conectada a uma bomba elevatória de 1.000 litros/dia, foi a opção escolhida,
devido a localização da casa estar a 100 metros de uma lagoa que sofreu
eutrofização ao longo de centenas ou milhares de anos de sua existência.
Ao cavarmos o poço utilizando técnica
simplória (veja no site
www.paulorandow.com.br/ecologica\muro.htm) encontramos uma zona de material
orgânico em decomposição a cerca de três metros de profundidade, com forte
cheiro de amônia. A água da lagoa é escura, próprio da presença de grande
quantidade de matéria orgânica vegetal decomposta. Lançar os efluentes tratados
no solo arenoso, permitindo oxigenação do efluente, de o mesmo ser retido pelo
fenômeno de capilaridade quando o solo não estiver saturado de líquido, além de
ter que atravessar uma camada de cerca de 50 cm de tufa produzida pela
eutrofização, se tornou fator de segurança quanto ao uso da água recolhida a 6
metros de profundidade e lançada dispersa sob o jardim.
Desta forma, a água tratada e clorada é
utilizada somente para o consumo humano, higiene pessoal, cozinha e área de
serviço.
Foi adotado sistema de aquecimento solar da
água do banho, cozinha e máquina de lavar.
Induzidos por um paradigma estético
optamos, desde a concepção do projeto, pela utilização de cerâmica ao invés
de granito, para o revestimento das paredes da cozinha, área de serviço,
banheiros e pisos: grande engano.
Ao discutir a questão do revestimento do piso
com vários amigos ambientalistas, percebemos que todos estavam induzidos a
acreditar que a cerâmica era mais apropriada para a opção ambientalmente correta
do piso, porém, já com grande parte do revestimento cerâmico comprado, surgiu em
nossa mente o questionamento do dano ambiental da cerâmica.
No caso da areia branca, já sabíamos do mal
que a extração causava em grandes áreas, sendo que em nosso estado, o Espírito
Santo, um importante ambientalista foi assassinado a mando de mineradores de
areia na região da restinga de Guarapari, onde em sua homenagem foi criado o
Parque Estadual Paulo César Vinha.
A extração de areia branca ocorre em áreas
onde, por milhares ou milhões de anos, partículas de quartzo liberadas pela
rocha matriz foram acumuladas e sendo lavadas pela água da chuva ou de rios. As
camadas são geralmente de baixa altura, obrigando o minerador a ampliar a área
de extração horizontalmente, deixando o nível do solo baixo e alagáveis pela
chuva, pois é normal que se encontre solo argiloso e impermeável logo abaixo da
camada de areia.
A reflexão sobre a extração da areia nos levou
imediatamente a perceber que a extração da argila para a produção de lajotas,
telhas e revestimentos cerâmicos é igualmente danosa.
No caso da cerâmica, a região de extração
ocorre nos vales, onde correm os rios, obrigando a retirada de matas ciliares e
solo altamente agricultável.
Outro fator negativo é que a argila adequada
para as cerâmicas são as mais finas, fruto de acúmulo de sedimentos ao longo da
margem dos rios após ciclos de enchentes e vazantes.
A quantidade desses depósitos de sedimentos é
reduzida, obrigando a retirada do material em extensas áreas superficiais.
Como a extração da argila ocorre no fundo dos
vales, dificilmente são observadas pelas pessoas que passam pelas estradas, isto
quando a extração ocorre próximo das vias públicas, o que geralmente não
acontece. Veja matéria de dano ambiental de extração de argila no site
http://noticias.ambientebrasil.com.br/noticia/?id=25879.
Quando partimos para a avaliação do impacto
ambiental da exploração do granito, tivemos como referência duas pedreiras
localizadas próximo de nossa obra: uma na Rodovia Darly Santos, no município de
Vila Velha, e outra na rodovia BR101, no município de Serra.
Lembro-me quando menino que ao passarmos perto
da pedreira em Vila Velha, ouvíamos vez ou outra o barulho da explosão para
retirada da rocha, isto há cerca de 40 anos atrás.
Esta pedreira já existia antes do meu
nascimento, e permanecerá ainda por dezenas ou centenas de anos, pois quanto
mais se aprofunda a mina, mais granito se encontra. Sua extensão pode ser
visualizada no Google Earth na latitude 20º 21’ 30” Sul e longitude 40º 19’ 30
Oeste. Sua extração atinge hoje um círculo com 750 metros de diâmetro.
Também a pedreira na BR101 no município de
Serra já forneceu brita para a construção de boa parte da região metropolitana
da Grande Vitória e conta ainda com potencial de extração por mais centenas de
anos. Sua extensão pode ser visualizada no Google Earth na latitude 20º 10’ 25”
Sul e longitude 40º 16’ 10 Oeste. Sua extração atinge hoje um círculo com 300
metros de diâmetro.
Neste caso, estamos falando de extração de
granito para brita, pois foram as pedreiras que já conhecíamos e tomamos como
base em nossa análise.
Aproveitando o acontecimento da VITÓRIA STONE
FAIR, nos organizamos para visitar a feira de mármore e granito para podermos
ampliar o conhecimento sobre o tema e buscar contato com mineradoras para
compreendermos melhor o uso do granito para revestimento.
No estande da Corcovado Mineradora, conhecemos
o granito branco batizado de Caravelas e nos informamos sobre sua extração,
beneficiamento e custo. Observamos que a área do estande era próxima ao piso
térreo de nossa construção e procuramos negociar o uso do mesmo em nossa obra
após o término da feira, obtendo assim uma condição adequada ao nosso orçamento.
Fomos indicados a leitura de uma matéria
publicada na revista Pedras do Brasil, edição 66 (fev/08) sobre a comparação do
Ciclo de Vida de materiais de construção, o que contribuiu significativamente na
compreensão do que buscávamos.
O processo de extração de matéria prima de
diversos materiais de construção ocorre de forma a retirar minerais disponíveis
na natureza para serem processados.
O vidro, o ferro, o alumínio, o cobre, o
cimento, o gesso, a madeira, a cerâmica, a areia, o barro, a brita, as rochas
ornamentais, entre outros materiais de construção, todos geram gases de efeito
estufa em seu processo de extração, transformação e transporte. Quando
comparados ao ciclo de vida, o granito ganha de forma impar de todos eles.
Ao se debruçar sobre o tema do tamanho da área
de extração em relação à quantidade produzida, o granito novamente ganha em
eficiência.
Mas há um tópico que o granito tem seu maior
mérito: abundância na natureza.
Toda a crosta terrestre é formada por rochas
em seu subterrâneo, sendo os afloramentos das rochas os mais fáceis de explorar,
minimizando os custos.
Em um longo tempo passado, no período da
formação da crosta terrestre, os vulcões lançaram o magma que ao esfriar se
tornou a rocha matriz, também chamada de rocha ígnea ou magmática.
Com a movimentação das placas tectônicas,
muitas rochas sofreram processo de pressão, extrusão, afloramento ou
afundamento, e nesse processo, devido ao aquecimento produzido pela pressão, os
cristais que formam essas rochas sofreram alterações em suas organizações
atômicas, promovendo o surgimento de rochas metamórficas, ou seja, que tiveram
transformações em suas estruturas minerais.
Também ocorreram fragmentações sucessivas das
rochas provocadas por intemperismos diversos, que geraram acúmulos de sedimentos
nos vales em função da chuva e do carreamento dos rios, num processo de
assoreamento gradativo de rios, lagos e lagoas. As camadas de sedimentos por sua
vez, ao longo dos anos, se transformaram novamente em rochas, chamadas
sedimentares, que também sofreram com as movimentações das placas tectônicas,
algumas se transformando em rochas metamórficas.
Os
afloramentos de rochas que vemos sobre a superfície da terra, geralmente
escondem um volume imenso da mesma rocha na parte inferior.
Se observarmos o mapa da formação geológica da
placa tectônica onde se situa o território brasileiro, veremos as diversas
idades de formação destas rochas representadas pelas cores. Mas não queremos
focar nas idades das rochas, pois os números são tão grandes que não conseguimos
compreender ao compararmos com nossa idade média de vida.
Queremos neste mapa apenas observar que todo o território brasileiro
está sobre rochas, e que em grande parte do território brasileiro ocorre
afloramentos, ou seja, a rocha emerge nua, sem solo agricultável ou vegetação
densa sobre os mesmos. São esses afloramentos que interessam a exploração das
rochas para construção, e a abundância deste material é incomparável quando
avaliamos os depósitos naturais de outras matérias primas, como a argila, a
areia e diversos metais.
Diante do exposto, partimos para a construção
de um quadro comparativo de materiais de construção para que pudéssemos
visualizar nossas análises.
|
Material |
Mineral |
Estoque na Natureza |
Emissão GEE na Produção |
Consumo H2O na Produção |
Área de Extração |
Ciclo de Vida |
|
Brita |
Rochas |
Imenso |
Baixo |
Baixo |
Pequena |
Alto |
|
Rochas Ornamentais |
Rochas |
Imenso |
Baixo |
Baixo |
Pequena |
Alto |
|
Cerâmica |
Argila |
Médio |
Alto |
Alto |
Grande |
Baixo |
|
Ferro |
Hematita |
Médio |
Alto |
Alto |
Pequena |
Baixo |
|
Areia |
Quartzo |
Médio |
Baixo |
Baixo |
Grande |
Alto |
|
Vidro |
Quartzo |
Médio |
Alto |
Baixo |
Grande |
Alto |
|
Alumínio * |
Bauxita |
Baixo |
Alto |
Alto |
Grande |
Baixo |
* Apesar de ser o metal mais abundante na natureza, sua extração
é difícil por estar diluído em outros minerais.
GEE = Gases de Efeito
Estufa
Analisando a tabela
acima, verificamos que as rochas, seja para uso como brita, alicerces, muros ou
para uso como revestimento de pisos e paredes, são os mais adequados
ambientalmente do que os outros materiais da lista, seguido pela areia, que
perde somente nos itens de estoque na natureza e em sua maior área de extração.
Os técnicos dos órgãos de
fiscalização ambiental também sofrem da distorção de compreensão sobre o impacto
ambiental do granito, e não os culpamos disto, pois o processo estético da
extração é geralmente visível aos que passam perto da pedreira, enquanto a
extração dos outros materiais é geralmente escondida da visão pública. Isto fez
com que o setor de mineração de rochas se tornasse alvo das fiscalizações mais
intensas, dificultando o setor de promover custos mais acessíveis para a
população.
Por outro lado, a intensa
fiscalização promovida no setor de rochas permitiu o desenvolvimento de práticas
que minimizam os impactos ambientais, obrigando o minerador a cuidar dos
mananciais, construir pilhas de rejeitos para serem ambientalmente recuperados
como forma de compensação ambiental.
Como um bom exemplo
disto, visitamos uma pedreira em Rui Barbosa na Bahia, onde o morro de rejeitos
em que foram plantadas árvores, se tornou o único local com floresta, no raio de
visão, da região.
De nossa parte, cabe a
responsabilidade de divulgarmos nossas descobertas e ajudarmos a promover essa
nova compreensão a respeito do granito, permitindo uma nova visão ambiental
através da mudança de paradigmas.
Interlagos II, Vila
Velha-ES, 02 de setembro de 2009.
Paulo Viana Randow
Filósofo e Ambientalista
Presidente da Ong Alma do Rio
www.almadorio.org.br