

Rio Doce, antigo como o Nilo,
Tigre e Eufrates, brinda a vida em Regência
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Foz
do Rio Doce
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RIO DOCE
Ceciliano Abel de Almeida
Estendendo-se por detrás da zona marítima, numa distância variável a partir do
litoral, o sertão oferece um aspecto físico bem diferente e bem distinto nas
duas principais secções em que o país naturalmente se divide: a região Norte e a
região Sul, mais ou menos delimitadas pelo paralelo de 18 de latitude
meridional. Em uma e outra região, o aspecto físico, a característica do sertão
é um fenômeno em íntima dependência com o relevo e altitude das montanhas, a
constituição do solo, e a grande umidade do clima continental. Para o Norte o
relevo do país é muito menos acentuado; o solo menos variado na sua constituição
geológica, se levanta sem grandes e bruscos desnivelamentos, assumindo as
montanhas o aspecto das planícies elevadas, ou chapadas de margens íngremes, que
as correntes fluviais, nem sempre perenes, rasgam e atravessam, deixando de
permeio as lombadas largas que a erosão secular modelou. Aqui e ali, na planura
que se desdobra a perder de vista, levantam-se serros curtos, pontiagudos,
espelhando o sol nas encostas nuas, brancas da rocha... O país é, no geral, seco
e monótono. A vegetação, por vastíssima zona, é sempre a mesma, raquítica,
espinhenta, retorcida, caracteristicamente acentuada nas espécies que constituem
o tipo da 'catinga', onde em solo pedregoso e quente sobressaem as acácias, os
sísifos e os cereus variadíssimos...
Bem diversa é a zona Sul. A mata do litoral vai aí se fazendo mais estreita. As
montanhas abeiram-se do oceano, e em mais de um ponto mergulham em suas águas as
encostas alcantiladas que avançam em promontório. O relevo do solo é aqui mais
variado, e, por isso mesmo, mais belo.[ 2 ]
CAPÍTULO I
O Rio Doce no tempo de Cabral.
Lendas. Entradas. Ouro. Comunicações. Estrada geral. Embarcação a vapor.
Liberta-se do vento a navegação. Farol. Regência Augusta. Padre Anchieta.
Navegação fluvial. A barra do Rio Doce. Flora e fauna. A madrugada. Retiram as
pranchas. Rio acima. Suínos. A benzedeira. Lenha. Ilha das Frecheiras. Grupo das
Carapuças. Energia do brasileiro. Cabas-tatu. Fechava o corpo.
Em maio de 1501 deixa Lisboa a
esquadrilha despachada por D. Manuel... "o mais bem afortunado rei da
Cristandade"...[ 3 ] para fazer o reconhecimento da terra de Vera Cruz, apossada
para a Coroa Portuguesa, por Pedro Álvares Cabral. Comanda-a André Gonçalves que
reconhece a embocadura do Rio Doce a 13 de dezembro do mesmo ano. Calcula sua
latitude Américo Vespúcio que acha 19°, 20'.[ 4 ]
Nessa época toda a bacia do Rio Doce
é resguardada por mata virgem, prolongamentos daqueles... "arvoredos" que "são
muitos e grandes e de infindas maneiras"...[ 5 ] assinaladas na carta de Pero
Vaz de Caminha e é, ainda, durante esse primeiro século do descobrimento do
Brasil que ela é, em parte, visitada, penetrada, devassada pela expedição
Navarro-Espinosa,[ 6 ] organizada por Tomé de Sousa e por outros que, de volta,
despertaram ambições e produziram lendas de riquezas inexauríveis.
Essas entradas, essas penetrações na
zona dessa bacia também noticiam e propalam a opulência de espessas florestas,[
7 ] assim nas planícies como nos sopés, nas encostas, nos cumes das montanhas,
só havendo exceções quando as rochas se exibem, superficialmente, descascadas,
temporizadas. Os devassamentos da região prosseguem nos séculos dezessete e
dezoito pelos paulistas que afoitos, audazes e resolutos vingam divisores de
águas de outras bacias e surgem na do Rio Doce invadindo o matagal,
derribando-o, queimando-o, coivarando-o, preparando, enfim, a terra para receber
a semente que produzirá o sustento, o alimento para aquela plêiade de
destemidos, de bravos, de aventureiros.
E no limiar do século dezoito que
aparece, em profusão, nas cabeceiras do rio, o ouro, e o governo colonial
acorda, alvoroça-se e toma medidas drásticas para impedir a fuga das pepitas
ambicionadas.
O governo para impedir a sua evasão,
proíbe a abertura de trilhos, picadas ou caminhos, e barra a navegação das
canoas isolando assim a parte alta da bacia e circunscrevendo os reflexos
exaustadores da faina da mineração.[ 8 ]
Da adoção de tais providências resultou o insulamento dos trechos baixo e médio
do rio, do do alto,[ 9 ] insulação que se estendeu até ao princípio do século
vinte. Em 1900, era, ainda, muito incipiente, muito precário o progresso do
baixo Rio Doce e de uma grande parte do médio.
Emprestamos de 1905 a 1930, ao
desbravamento do vale do Rio Doce, como engenheiro da Companhia Estrada de Ferro
Vitória a Minas todo o esforço no cumprimento de nossos deveres de profissional
e de brasileiro. Há neste livro páginas arrimadas em historiadores e publicistas
de alto renome, outras por nós testemunhadas e por nós vividas.
* * *
Durante o governo colonial as
comunicações do Norte do país com o Sul são feitas por navios de vela, e por
terra, pela praia, ouvindo-se o bramido do mar, desviando-se das ondas
espumejantes, porque o único empecilho sério que se encontra é a travessia dos
rios. É a estrada real, segundo Thomé Couceiro de Abreu, e "comua desde a Bahia
até o Rio de Janeiro..."[ 10 ] dependendo, apenas, de moradores com canoas que
aceitem o encargo de dar passagem mediante paga. Assim há, por parte dos
ouvidores, a preocupação de povoar os rios nas vizinhanças do mar. Nem sempre,
porém, permaneciam as famílias aí colocadas. Retiravam-se por causa dos ataques
dos indígenas. Nessa situação precária, também a barra do Rio Doce teve os seus
moradores pelo menos no meado do século dezoito. Antes, porém, em 1650, já se
topa notícia de ser feito o percurso entre a capitania e Salvador, "por mar ou
por terra", muito embora não haja "uma indicação que fosse sobre construção de
estrada entre Vitória e a cidade de Salvador durante o período colonial."[ 11 ]
Em 1836 aparece referência ao mau estado da estrada geral que liga Vitória ao
Rio e à Bahia o qual "entorpece a marcha dos viajantes e estafetas".[ 12 ]
No fim do século passado e princípio
deste, percorremos a cavalo grande parte do caminho da beira-mar, entre S.
Mateus e Regência e, muitas vezes, o de Vitória a Santa Cruz-Linhares-S. Mateus,
denominado Estrada da Linha.[ 13 ]
Se a comunicação entre o Norte e Sul
do país era penosa, por terra, oferecendo o transpor do Rio Doce a maior
dificuldade, no Espírito Santo, também não era facilmente acessível a barra
desse rio, fato registrado por diversos memorialistas.[ 14 ] Todavia José
Teixeira de Oliveira, baseando-se em depoimento de José Marcelino, afirma que
"pela primeira vez, um vapor sulcou o celebrado Rio Doce [...] entre 1836 e 41"
e recorda, ainda, "que a primeira embarcação a vapor que tocou em Vitória foi o
Correio Brasileiro em 1826". Por aqueles tempos não há, na terra de Maria Ortiz,
navegação de longo curso, mas a máquina a vapor aplicada aos navios vai fazendo
desaparecer a influência do "fresco vento" que tanto preocupava os capitães
ousados e previdentes, e ressaltada pelo poeta:
Mas vendo o capitão que se detinha
Já mais do que devia, e o
fresco vento
O convida que parta e tome asinha
Os pilotos da terra e mantimento,
Não se quer mais deter que ainda tinha
Muito para cortar do salso argento.[ 15 ]
Desenvolve-se o país. Crescem suas
forças econômicas. Avoluma-se o comércio. Impõe-se a intensidade da circulação
das riquezas. Multiplicam-se os barcos a vapor, e a navegação costeira
estabelece o intercâmbio entre os portos nacionais. Disseminam-se os faróis e o
Ministério da Marinha resolve, também, mandar construir um na barra do Rio Doce,
o qual é inaugurado em 1895, no pontal do Norte, sendo doze anos depois
"transferido para o pontal do Sul[ 16 ] e está situado na latitude de 19°, 37',
5" e na longitude de 39°, 48', 5"."[ 17 ]
Em 1905 o primitivo farol é
inspecionado e fotografado, pelo Capitão-de-Corveta Veríssimo Costa, a 24 de
novembro[ 18 ] que atribui a origem! do nome do Rio Doce ao fato de haverem
"alguns navegantes portugueses encontrado no mar água doce defronte deste rio a
seis milhas da barra".[ 19 ] Está a povoação de Regência Augusta[ 20 ] à margem
direita do rio, distante de sua foz seiscentos metros, trinta e três da do Rio
Preto e três quilômetros do povoado de Cacimbas.[ 21 ] É aqui, segundo a lenda,
que o Padre Anchieta, em dia calmoso, caminhando no areal reverberante de calor
e de luz, cujas cintilações quase o endoidam, cansado, exausto, sente que vai
cair e rezando... rezando conturbado, perde os sentidos e quando os recupera,
está à beira da Lagoa das Cacimbas, [ 22 ] sucessão de "pequenos lagos
contornados de brancos e graciosos areais"...[ 23 ]
* * *
Em Regência Augusta a largura do rio
atinge mais de dois quilômetros.[ 24 ] É, em 1905, a sede da navegação fluvial,
cuja flotilha, vistoriada pelo Capitão-de-Corveta Veríssimo Costa, é constituída
pelos vapores Muniz, de Viana e Cia., e Milagre e Santa Maria, subvencionados
pelo governo do Espírito Santo, da firma Mascarenhas, Costa e Cia.
Transportou-se esse oficial de
Marinha, que tão bem descreveu suas viagens pelos rios navegáveis do Espírito
Santo, de Vitória a Regência Augusta, a bordo do pequeno vapor União,
pertencente a Carlos Pinheiro Azevedo. Também vapores da Companhia de São João
da Barra e Campos e da firma J. Zinzen e Cia.[ 25 ] faziam o serviço de
cabotagem de Regência a outras praças e vice-versa. E, antes, o relatório
apresentado à Assembléia, em 9 de julho de 1888, declara que Miranda Jordão e
Cia. "mandaram ultimamente para os serviços de transporte do Rio Doce a esta
Capital o Rio São João (a vapor) que tem servido regularmente"[ 26 ]
Salienta o Capitão-de-Corveta
Veríssimo Costa que "fora do cordão tem 8 a 9 braças (a barra) e dentro até os
pontais 6 braças". E acrescenta: "como barra de rio já é bastante funda e com o
prático que ela possui, não posso classificá-la de perigosa, quanto mais que,
quando se acha ela impraticável, é logo pelo telégrafo avisado para Vitória."
Regência Augusta "teve uma época de
muita prosperidade" segundo informações obtidas pelo Capitão-de-Corveta
Veríssimo Costa, que nota o repontar de sua decadência[ 27 ] quando,
referindo-se à capelinha, construída por ingentes esforços do Professor Pio
Pedrinha, já falecido, e por todos os habitantes da localidade, escreve:
"atualmente está ela bem decadente, necessitando de grandes obras e pinturas".[
28 ]
Não faz exceção a flora da beira-mar,
próxima à foz do Rio Doce, em confronto com a dos outros rios da costa
espírito-santense. Lá estão, sucessivamente, as salsas da praia, os guriris, o
emaranhado de uma vegetação rasteira, castigada pelos ventos marítimos, depois,
as castanheiras, as grumixameiras, as pitangueiras, as almesqueiras, as
aroeiras, as ingás-mirins que sombreiam os gravatazais... E essa capoeira rala,
que se parece com a caatinga, vai-se modificando para oeste até se apresentar de
caules volumosos,[ 29 ] de troncos seculares: são as afamadas, as decantadas
matas virgens do Rio Doce. E como este não está sujeito às marés, há completa
ausência de mangais.
Nessas praias, nesses matagais de
árvores de portes retorcidos, de caules estirados de mistura com espinheiros,
cardos e macambiras, nessas florestas de essências preciosas, aí, nesse recinto
agreste reina uma fauna opulenta do beija-flor ao juruaçu barulhento, do
tico-tico à arara espalhafatosa, do tié ao aracuão assustadiço, da jaçanã ao
mutum sussurrante, do saí ao surucuá pacífico, do ananaí ao pato grasnador, do
cancã à juriti plangente, da rola ao bem-te-vi rezingão, do sanhaço à
garça-branca, da cambaxirra ao sabiá melodioso...
Nele erram o papa-mel, a raposa de
astúcia requintada, o ouriço de pêlos agressivos, a jaguatirica de pele
apreciada, o catingueiro, tímido e veloz, o jaguaritaca, "estranho e
fedorento",[ 30 ] a paca encafuada, o cágado prudente e velhaco, o tatu
cauteloso, o teiú rapinante e valentão, o sagüi-caratinga saltador e mimoso... o
caititu, o queixada, a cutia, a capivara, a anta, a onça-vermelha e a pintada.
Nos lugares sombreados, nas beiradas
de lagoas, nas galhadas de árvores,[ 31 ] lá demoram serpenteando em busca de
presas, ou parados, enrodilhados, de bote preparado, à espera de ratos e preás,
o jararacuçu, a ouricana, a surucucu, a caiçaca, a coral... Há dessas serpentes
algumas que deslizam no chão e nas árvores como bem registrou Gabriel Soares.[
32 ] A surucucu-patioba tem esse nome porque, geralmente, é encontrada sobre a
folha dessa palmeira.[ 33 ] Também são abundantes as cobras-cipó, caninanas e
muitas outras que não são venenosas.
Infestam a bacia do Rio Doce,
miríades de rãs, sapos, aranhas, escorpiões, mosquitos e vespas. Borboletas e
abelhas nela se desenvolvem, abundantemente, e, também, peixes e moluscos.
* * *
Há em Regência Augusta, na tarde
daquele dia, um movimento desusado, uma animação incomum, e tudo porque, pela
madrugada do dia subseqüente, há de partir, rio acima, o navio que se acha
carregado com mercadorias, que abastecerão os povoados ribeirinhos até ao último
porto da navegação fluvial.
A agitação generaliza-se. Impetuoso o
vento nordeste encapela as ondas de preamar, na embocadura do rio, que não
bastam, porém, para formar pororoca. Açoitados por ele arbustos e árvores
obliquam-se, folhas são arrancadas e galhos se atritam, gemem e roçam,
fortemente, uns de encontro aos outros. Balouçam as catenárias do fio
telegráfico, e as andorinhas, aos milhares, pousam nele e nos telhados das casas
e da velha capelinha, soltando grasnidos,[ 34 ] trissos, na chilrada múltipla,
confusa, nervosa e rápida. Depois anoitece e, brando, sopra o terral.
Amiúdam os galos. Os primeiros sinais
da aurora apontam. O passaredo, talvez, num misto de medo e de alegria, pia,
aqui, nos quintais, a corruíra, o canário, o sanhaço empoleirados na goiabeira,
na laranjeira, no cajueiro; lá, na capoeira, o inamu, o tururim, a pariri, e,
além, na mata, o macuco, a maitaca, o tucano. Galinhas, meio cegas pela escassez
de claridade, perseguem às tontas, na grama orvalhada, insetos que não acertaram
com o esconderijo e fogem para salvar-se. Outros animais domésticos: patos,
gansos, perus, cavalos, asnos, bois, todos se movimentam e emitem, suas vozes.
Aparece, agora, uma calota do sol, embora esteja ele, ainda, abaixo do
horizonte. É hora da partida. Já o mestre do navio apitou, mais de uma vez, e
quando der o terceiro apito manda, sem mais espera, desatracar.
Precipitam-se sobre a embarcação os
passageiros. Ouve-se o último apito e a voz de comando: "retirem as pranchas!"
* * *
Franca é a navegação do rio nas
primeiras horas de viagem, e exuberantes são as florestas de suas margens.
Chega-se, sem incidente, à Povoação, situada à margem esquerda. É nesse lugar
que residia no primeiro quartel do século passado, segundo Francisco Alberto
Rubim, Antônio José Martins, de cuja casa "segue pela costa do mar a estrada
geral desta capitania para a Bahia..." Povoação que, agora, está decadente, foi,
entretanto, o primeiro ponto do rio, nas cercanias do mar, em que o indígena
travou relações com o europeu estabelecendo paz duradoura, graças ao trabalho de
catequese dos missionários; e se dedicou, por fim, ao amanho da gleba. [ 35 ]
Em Povoação a criação de suínos
faz-se com facilidade e são eles vendidos em pequenas partidas para os portos de
montante, conforme as encomendas feitas. Terminando o embarque de alguns desses
animais grunhidores, que ato,:doam e ensurdecem os passageiros, está o navio
prestes a partir, quando um rapazola dele se avizinha e grita: "Seu mestre! Por
favor, espere um nadinha! A benzedeira já vem. A mulher que ela benzeu estava
endoidecendo de dor de cabeça e ela rezou e disse "tenha fé que a dor passa".
"Lá vem a benzedeira, seu mestre."
Que remédio senão esperar que ela
embarque, para retirar as pranchas.
Ela faz muito benefício. Benze e
cura. A gente não sabe explicar, mas que a reza dela faz milagre, faz.[ 36 ]
* * *
Deixadas atrás as ilhas que
defrontavam com a Povoação abica o "caixa-de-fósforo" à Boa Vista para se prover
de lenha. No Rio Doce, e em outros rios brasileiros, como o S. Francisco[ 37 ] e
os da bacia amazônica,[ 38 ] o combustível, geralmente usado na fornalha é a
madeira.
Feito o carregamento, larga as
amarras o barco e não demora fronteia com a Ilha das Frecheiras. Na margem sul
do rio ainda se percebe a entrada do canal para o Rio dos Comboios, cuja
construção foi iniciada pelo norte-americano Mac-Irven, que não a prosseguiu,
por causa dos embaraços que o assaltaram, muito embora contasse com o apoio do
governo provincial, que o auxiliou com a quantia de dois contos de réis, em
cumprimento da lei número dois de 1860.[ 39 ] No quadriênio (1920-1924) do
governo do Coronel Nestor Gomes foi, novamente, tentada a realização dessa obra,
sob a direção do Sr. Lastênio Calmon, que não poupou esforços para conseguir o
êxito desejado.
Na Ilha das Frecheiras o aspecto da
mata virgem destaca-se pela sua grandiosidade. Aí ela forma "uma densa muralha
ao longo do rio", na expressão feliz de Charles Hartt, e, além dessa muralha,
desse véu espesso, que, só "armado de forte facão de mato", se pode nela
penetrar, estão os gigantes dessa floresta tropical — jequitibás, vinháticos,
sapucaias, ipês, cedros, canelas...
Antes de se transpor a Ilha das
Frecheiras, uma das maiores do rio, já se divisa, ao longe, um grupo de ilhotas
retratando fortalezas, como sentinelas avançadas, que tentassem impedir a
passagem de embarcações. Em se aproximando, porém, algumas delas parecem
transformar-se em "igrejas com. as suas cúpulas e outras imitam carapuças".[ 40
] Por isto são assim nomeadas. Nas enchentes ficam as Carapuças imersas.
Além desses ilhéus, situa-se a Ilha
do Jacarandá, espaçosa e de vegetação magnificente, seguindo-se-lhe o grupo das
três ilhas em que se sobressai, por ser mais extensa, a de Coimbra.
Defrontando com esta, fica uma terra elevada, que não é submersa pelas cheias do
rio, denominada Ilha de Domingos Sousa, [ 41 ] por ser esse agricultor o
primeiro que a desmaninhou.
* * *
Atinge-se o princípio de um labirinto
intricado que forma o canal através do qual a navegação se faz penosamente. As
margens do rio continuam, sem! interrupção, cobertas de matas virgens
inigualáveis.[ 42 ] Nesse solo prodigioso, mais tarde surgirão as lavouras de
cacau. Multiplicar-se-ão as fazendas, e o Espírito Santo passará a ser produtor
e exportador da apreciada amêndoa. A fertilidade do Vale do Rio Doce, proclamada
desde os tempos coloniais, tornar-se-á confirmada, e mais um produto agrícola
encontrará nesse vale o seu ambiente natural.
O devassamento das florestas, o viço
dos cacaueiros, as fazendas, as escolas, as estradas, o saneamento, a
civilização enfim, atestarão a inteligência, a pujança do brasileiro, "do homo
dinamicus, no conceito ratzeliano", e provocarão admiração e registros elogiosos,
assim de brasileiros[ 43 ]41 como de estrangeiros.[ 44 ]
* * *
Vingada a passagem do barco, nesse
trecho de águas rasas, abica-se ao barranco da margem esquerda, no sítio de
Gorgonha, para abastecer a lenha. Enquanto se enfileiram os tripulantes para
embarcá-la passando as achas, os tocos, de mão em mão, para empilhá-los no
vapor. Um dos passageiros, na esperança de encontrar alguns frutos, afasta-se em
direção a uma cajazeira em cujo tronco há um semi-elipsóide pardo parecendo-se
com o corpo de um tatu, espécie de cortiço, onde vivem associadas as cabastatu.
Pressentem-no os vespídeos e atacam-no. Pira-se o incauto e a bordo apresenta-se
ofegante, de rosto, lábios e mãos intumescidos, crivados de roséolas, sentindo
dores lancinantes.
Vendo-o naquele estado lastimável, de
orelhas esbraseantes, de olhos injetados, de chapéu à cabeça em que ainda está
embaraçada uma vespa, alguém sugere chamem a benzedeira para rezar e as dores
cessarão.
— Não rezo contra veneno de cobra nem
de marimbondos. Há tempos esteve em Regência vindo dos sertões de Conceição da
Barra ou de São Mateus um homem rezador, que fechava o corpo. Era um cearense de
nome Raimundo Mergulhão. Sabia toda espécie de reza. Pedi-lhe que me ensinasse e
ele, parece, não gostou de meu pedido, e disse enfadado: "Mulher não pode
aprender benzimentos contra picadas dos bichos, pois que o doente piora quando
ela se achega dele." Ponham nas mordidas um dente de alho socado e se quiserem
mezinhas de farmácia o óleo elétrico é muito bom, e o pronto alívio é um santo
remédio.
Ceciliano Abel de Almeida
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