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Realizada a Travessia de Portugal de Leste a Oeste - Descida do Rio Douro
Leia o relato da travessia: por Maria Fernanda - Clique aqui por Marco Martins - Clique aqui
Sucesso Total na Travessia de Portugal Veja o percurso. Clique aqui
Maria Fernanda e Paulo Randow se preparam para a primeira travessia internacional da Alma do Rio.
No dia 21 de junho embarcam para Portugal com intenção de atravessar o país português de Leste a Oeste, remando nas águas do rio Douro, num percurso de 209 km, partindo de Barca de Alva, na divisa com a Espanha, em direção ao mar, na cidade do Porto.
No dia 28 de junho iniciam a Expedição junto com quatro portugueses que já confirmaram presença.
Paulo Simões, de Coimbra, Marco Martins, de Porto, Jonas, de Vila Nova de Gaia, Nelson, de Vila Real.
Esse modelo chamado Big Sea II foi utilizado pelo empresário Artur Pereira em uma viagem ao Polo Norte.
Conheça a empresa no site www.kayaksipre.com
Outro Big Sea II será utilizado em nossa expedição. A bordo dele estará Paulo Simões e Nelson.
Entre as dificuldades do percurso a transposição das cinco barragens é a mais estudada pela equipe.
Apesar do Instituto de Navegação do Douro ter autorizado a utilização das eclusas sem pagamento de taxas, a questão reside no tempo que a eclusa leva para levar uma embarcação até a parte baixa.
São 30 minutos em média para fazer a transposição pela eclusa. Porém, se chegarmos no momento em que ela está em baixo, até que suba com embarcações para que possamos descer, poderá passar de 1 hora. Nosso tempo máximo previsto para cada barragem é de 40 minutos, portanto, estudamos formas de transpor cada barragem por terra, ou com ajuda do carro de apoio ou carregando os caiaques.
Estudo de transposição da Barragem Valeira As barragens em ordem são: Pocinho, Valeira,
Régua, Carrapatelo
e Crestuma.
O Rio Douro e o Rio Doce Segundo a história, o seu nome deriva de quando rolavam brilhantes pedrinhas que se descobriu serem de ouro. Nasce na Espanha a 2.080 metros de altitude e tem a sua foz na costa atlântica, na cidade do Porto. O seu curso tem o comprimento total de 850 km.Em comparação com o rio Doce, tem quase a mesma extensão e cruza o Espírito Santo na parte Norte. A Alma do Rio realizou em janeiro de 2007 a expedição “Travessia do Espírito Santo de Oeste a Leste – De Baixo Guandu ao Mar” e agora busca em sua primeira expedição fora do Brasil, identidades e contrastes que nos ajudem a melhorar a qualidade das águas do Rio Doce e dos outros mananciais do solo capixaba. O rio Doce e o Rio Douro tem características singulares:
• Possuem 850 km de extensão da nascente até a foz no oceano Atlântico; Travessia de Portugal - De Leste a Oeste Descida do Rio Douro – De Barca de Alva ao Mar O Rio Douro nasce na Espanha a 2.080 metros de altitude e tem a sua foz na costa atlântica, na cidade do Porto. O seu curso tem o comprimento total de 850 km. desenvolve-se ao longo de 112 km de fronteira portuguesa e espanhola e de seguida 213 km em território nacional. A sua altitude média é de 700 metros. No início do seu curso é um rio largo e pouco caudaloso. Com a construção das barragens, criaram-se grandes reservatórios de águas tranqüilas que vieram incentivar a navegação turística e recreativa, assim como a pesca desportiva. Espécies nativas, como o escalo, a enguia e a truta, têm sido dizimadas ou pela pesca à rede descontrolada e/ou pela modificação das condições ambientais (parte do ano estão perto do limite de resistência de algumas espécies). Após a construção da barragem, foi feita a introdução da Carpa que, podendo atingir acima dos 20 kg, tem a propriedade de se alimentar de tudo, fazendo a limpeza das barragens mesmo em condições precárias de oxigenação das águas. Mais recentemente, surgiram o Achigã, a Perca, o Lúcio (peixes carnívoros) e o Lagostim vermelho, (todos eles originários de outros países). Pode ainda encontrar-se, com abundância, a boga e o barbo e até mexilhão (idêntico ao do mar). O Projeto
Com praticamente a mesma extensão, o rio Douro atravessa Portugal num percurso de 208 km, enquanto o Doce cruza o Estado num percurso de 154 km. As comparações poderiam parar ai, mas o rio Douro teve em sua história a carga de destruição e tentativa de navegação, em parte, semelhante à história do Doce. Além disto, uma ferrovia foi construída em sua margem Sul, produzindo também alterações sérias ao meio ambiente. A construção de barragens para tornar o rio navegável e gerar energia elétrica quase se assemelha ao nosso Doce, com a diferença que no Douro foi construído eclusas para transposição dos navios. A Alma do Rio deseja com a Travessia de Portugal de Leste a Oeste, fazer um contraponto com a Travessia do Espírito Santo de Oeste a Leste, buscando observar os erros e acertos dos nossos colonizadores, as soluções que podem ser aplicadas no Doce e o que deve ser repensado diante de possíveis interferências em nosso rio. Qual a solução para o esgoto residencial? Como buscam evitar que o rio receba o lixo da população? Quais as formas de gestão das águas do Douro? Como facilitar a migração dos peixes em sua busca de sitio de alimentação ou de reprodução? Essas e outras questões estão em nossa lista de perguntas a quais desejamos ouvir, ver e documentar as respostas de nossos colonizadores. São pelo menos 700 anos a mais de experiências, de erros e acertos, que Portugal tem em relação ao Brasil. É essa maturidade em relação ao rio Douro que desejamos conhecer e divulgar para os capixabas (como chamamos os nascidos no Espírito Santo). O evento No dia 21 de junho de 2007 os Diretores da Alma do Rio, Paulo Randow e Maria Fernanda Gomes, embarcam para Portugal. A empresa fabricante de caiaques SIPRE KAYAKS irá fornecer a embarcação como apoio à expedição, evitando assim o custo do transporte do caiaque oceânico da Alma do Rio. Até o dia 28, início da Descida do Rio Douro, ajustes ao projeto e autorizações necessárias para navegação no Douro, além de estratégias para transposição das cinco barragens existentes no percurso, deverão ser feitas. Os canoístas portugueses Paulo Simões, de Coimbra, Marco Martins, de Porto, Jonas, de Vila Nova de Gaia, Nelson, de Vila Real, estão ajudando na estratégia de travessia e irão fazer toda a travessia conosco, sendo que o Paulo Simões dividirá o percurso com outro canoísta no terceiro dia, devido compromissos profissionais. Um grupo de canoístas denominado Amigos da Pagaia (pagaia=remo) estão se organizando para partilhar de nossa travessias em alguns trechos ou dias, principalmente no sábado e domingo. O Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos - Delegação do Douro, que administra as barragens e as eclusas, já autorizaram nossa passagem e aguardam definições dos horários que utilizaremos as eclusas, facilitando assim nossa travessia. O plano definitivo, com horas prováveis de passagem nos vários locais do rio, será enviado a autoridade nacional de proteção civil, de modo a alertar as corporações de bombeiros sobre a passagem da expedição pelos respectivos setores. Um fórum de discussão sobre a expedição foi criado no site www.amigosdapagaia.com e avança no tema sobre a melhor forma de realizar a travessia, seus pontos críticos e formas de apoio a favorecer nossa intenção. Pesquisas sobre ventos, marés, melhores locais de pouso, entre outras, estão sendo desenvolvidas para melhor planejamento da expedição. Nossa perspectiva é de concluirmos nossa travessia no dia 1 de julho às 17 horas, na cidade do Porto. Programação
=================================================================================Planejamento da Expedição com previsão de tempo ao longo do percursoTravessia de Portugal de Leste a Oeste pelo Douro
Relato da travessia por Marco Martins http://apagaiadogadelhas.no.sapo.pt/
Terça-feira, 3 de Julho de 2007
Travessia de Portugal de Leste a Oeste – Descida do Rio Douro Por Maria Fernanda Gomes Nossa história começa em abril, quando eu e Paulo planejávamos uma viagem de férias. Pensamos em viajar para o sul do Brasil de carro para conhecer alguns lugares como Gramado e Canela e depois ir para a fronteira com Argentina e Paraguai para conhecermos as famosas Cataratas do Iguaçu. Uma ótima pedida não acha? Mas, um telefonema de minha mãe acabou por me deixar numa dúvida, que vou confessar: pesava mais para o lado dela. Meus pais haviam conseguido uma ótima promoção de uma companhia aérea para viajar para Portugal. Realmente irresistível. Minha família por parte de pai é toda de lá e gosto muito deles, estava com bastante saudade. Já fazia nove anos que não os via. Então, revelei meu desejo para Paulo que se empolgou e ficou mais empolgado ainda quando descobriu que existia um grande rio que cortava Portugal de Leste a Oeste, chamado Rio Douro. Portugal! Esse seria o destino de nossa viagem. Paulo começou a fazer pesquisa sobre o rio na Internet. Traçou a rota pelo Google Earth, leu sobre a sua história, volume de água, comportamento, foz, tudo isso com o intuito de realizar uma descida de caiaque até a foz. Para ele era preciso fazer algum feito para marcar a nossa viagem em Portugal. Perguntou se eu topava o desafio e como gosto de desafios topei logo. Paulo enviou e-mails para várias entidades envolvidas com o Douro, Brasil, Portugal, e para 30 mil e-mails da mala direta da Ong Alma do Rio. De alguma forma o projeto acabou chegando ao site www.canoagem.online.pt que colocaram uma matéria sobre a travessia, e logo depois Paulo Simões, canoísta de Coimbra enviou e-mail se dispondo a ajudar como pudesse. Uma grande empatia surgiu entre o Paulo daqui e o Paulo de lá o que ampliou a alegria e a certeza da possibilidade de realizar o intento. Logo depois o grupo de amantes da canoagem Amigos da Pagaia abriu em seu fórum no www.amigosdapagaia.com uma discussão para também ajudar na travessia. Desde então começou a se criar um entrosamento legal com o grupo. Eles achavam difícil fazer o percurso de 209 Km em quatro dias. Parece que só 4 pessoas tinham conseguido fazer, e mesmo assim, em um barco de competição para quatro, entre eles estava o Artur, diretor da Sipre Kayaks, que revelou ter feito também essa travessia em um k1. Outra descoberta legal foi a existência de cinco barragens no rio com suas eclusas que permitem a navegação no trecho do rio chamado Douro Nacional, e por uma incrível coincidência, essas barragens são do Grupo EDP, que também é dona da represa de Mascarenhas no Rio Doce e que ainda não possui sistema para transposição de peixes. Nas conversas pelo MSN descobrimos que pagaias são remos em Portugal, que porreiro é aquele cara legal, e que giro e fish significa alguma coisa especial, que fogo e força é o mesmo que “valeu, vamos lá!”, e várias outras expressões a mais que fomos descobrindo ao conversar com os portugueses. Uma fábrica de caiaques chamada Sipre nos ofereceu um caiaque, e que caiaque!!! Os caiaques de Portugal são um show! Eles investem em pesquisa e tecnologia. Gostam de utilizar materiais de primeira qualidade para a fabricação dos mesmos. Primam muito pela segurança e o conforto do remador. Artur, o dono da fábrica foi muito atencioso com a gente. Em um primeiro momento mandou uma foto de um caiaque muito bonito, vermelho e laranja, que esta na logo de nossa camisa. Mas, no fundo, ele queria que remássemos em um caiaque que exibisse as nossas origens, então pediu emprestado a um amigo um caiaque verde com nuances amarelas, que ele mesmo tinha fabricado. Pronto! Já tínhamos um caiaque que seria a nossa cara. Resolvemos chamá-lo de Piracema, que é a nossa luta no Espírito Santo. Juntamente com Paulo Simões, Marco, Nelson e Jonas planejamos nossa expedição. Fizemos o levantamento de quantos quilômetros iríamos percorrer em cada dia, estimativa de horários de partida, chegada nas eclusas os pontos de parada e a logística. Entramos em contato com o Instituto de navegação do Douro que permitiu a utilização das eclusas sem o pagamento de taxas. Foram 2 meses de trabalho de planejamento. Paulo tem tudo guardado, desde o primeiro e-mail enviado em 26 de abril para conseguir informações sobre possibilidade de alugar um caiaque, além de todos os diálogos entre ele e os canoístas portugueses. No dia 21 de junho embarcamos para Portugal. Ficamos dois dias em Lisboa e seguimos para Santa Maria da Feira, para a casa de meus parentes, a 20 km da cidade do Porto. Logo o Paulo envolveu o meu tio Jorge que tem um barco motorizado e poderia nos apoiar com o reboque para transportarmos o caiaque até o rio Douro. Ele é um apaixonado por pescaria, e animado, disse que poderíamos contar com ele para nossa aventura. O caiaque que iríamos utilizar na travessia estava em Ovar, a 8 km da casa onde ficaríamos hospedados, e seguimos para lá no dia 26 para encontrar com To Plaza, o proprietário do caiaque e amigo do Artur da Sipre Kayaks. Chegando lá, tivemos o primeiro contato com o caiaque e assim que o retiramos do galpão da marina de Ovar, Paulo colou os adesivos que havia feito com o nome “Piracema”, e assim, estava batizado o nosso parceiro de travessia. No dia 27 fomos para Esposende conhecer a fábrica da Sipre Kayaks, entrevistamos o Artur Pereira, recebemos as “pagaias” e os coletes salva-vidas, oferecidos pela fábrica. Seguimos depois para Peso da Régua onde encontraríamos com Paulo Simões, nosso cicerone até a divisa com a Espanha. No caminho para Peso da Régua passamos por montanhas enormes de onde víamos o Rio Douro. O que mais nos impressionou foi o aproveitamento do solo português com culturas de videiras, oliveiras, amendoeiras dentre outras. Vimos também muitos aerogeradores nos topos das montanhas, eram vários. Ficamos encantados. Em Régua nos encontramos com Nelson que foi nos cumprimentar e com Paulo Simões que nos levaria junto com o Piracema. Seguimos para Barca de Alva e logo paramos em uma banca de frutas. Compramos cerejas, pêssegos e ameixas. Que delícia! Nunca havia comido cereja sem ser em calda. Chegamos em Barca de Alva e já eram umas vinte horas da noite. Era dia. Os dias são bem longos nessa época do ano em Portugal. Ficamos em um hotel muito agradável em frente ao rio, onde tomamos uma sopinha de noite com pão e chá gelado. 1º Dia – 28 de junho Acordamos ás cinco horas da manhã para começar os preparativos para a travessia e aguardar a chegada dos outros companheiros para partir ás seis horas da manhã. O Rio Douro estava um espelho. Um espelho mesmo! O sol ainda não havia dado o ar de sua graça, estava escondido atrás das montanhas. Confesso que senti um certo friozinho na barriga. Eu olhava para aquelas águas límpidas, porém, escuras devido a profundidade e sentia um mistério no ar. Dois navios enormes de cruzeiros estavam ancorados no porto. Finalmente os outros parceiros chegaram depois de um atraso de uma hora e quarenta minutos. Partimos eu e Paulo, Paulo Simões e Nelson, Mota e Jonas em três caiaques duplos. Rute e Mota ficaram nos carros para apoio em terra. Nelson marcou a partida com o som estridente de sua corneta. Fiquei responsável por fazer as filmagens, tirar fotos e remar. Tive que ser que nem Bombril: “Mil e uma utilidades” (Bombril é a marca de lã de aço mais famosa no Brasil). Mais fui. Mascando chicletes para acalmar a ansiedade, o mp3 para ouvir quando o cansaço e a dor batesse, o esparadrapo para evitar os calos, capa de chuva, água, castanhas do Pará, barras de cereais, primeiros socorros e muitas pilhas, baterias e outros equipamentos eletrônicos que não podiam ver água de jeito nenhum. Sentia as águas do Douro leve, bem leve. No caminho algumas quintas, que seriam grandes fazendas, sendo a maioria de ingleses, conforme afirmaram nossos novos amigos portugueses. Vimos muitos pombais que eram usados para criação de pombos que mais tarde seriam consumidos. Essa era uma prática muito usada no passado, hoje os pombais estão abandonados, nos informou Paulo Simões. Acostumados a ver no Brasil grandes extensões de terras para pasto ou abandonadas, ficamos encantados de ver o solo bem aproveitado com plantações de oliveiras, videiras, amendoeiras e sobreiros, que aprendemos ser a árvore de onde se tira a cortiça. Chegamos na Barragem Pocinho na hora certa. Nos dirigimos a eclusa para passar para a jusante do rio. Mais atrás vinha um pequeno barquinho com um senhor. O sinal foi dado e as portas da eclusa começaram a se fechar. Depois de fechada o nível de água do compartimento começou a baixar. Era a primeira vez que todos ali entravam em uma eclusa a bordo de um caiaque. É um bom teste para o coração. O volume de água estava diminuindo muito rápido, e olhar a porta que segurava a água da montante assustava um pouco. Lá dentro começou a fazer frio por causa das paredes molhadas e a falta de sol. Na minha cabeça eu imaginava: o que fazer se de repente essas portas se abrirem? Coisas de Maria Fernanda. Até que enfim chegamos no nível da jusante e as portas começaram a se abrir. Que alívio! O sinal verde acendeu e saímos em disparada para aproveitar a correnteza que se formava devido à hidrelétrica na barragem, chegamos a 15 km/h. Show de bola! Logo à frente paramos na margem esquerda para almoçar. Continuamos nossa jornada com um vento de frente que chamam de Nortada, e que provocava pequenas ondulações na água, dificultando nossa remada. Começamos a observar o relevo mais seco. Muitas pedras e montanhas recortadas, tipo tabuleiro para cultivo de algumas culturas nas quintas. Estávamos nos aproximando de nosso ponto de parada para fazer a pernoite, vencendo o vento sem parar. Encontramos com Rute e Mota na Estação Freixo de Numão, que poderia ser um dos pontos de pernoite, caso necessitássemos. O grupo descansou um pouco e resolvemos seguir até a Quinta do Vesúvio para completarmos os 50 km diários que tínhamos planejado. Quarenta minutos depois chegamos na Quinta do Vesúvio. Muito linda e imponente. Logo o carro de apoio chegou com as tralhas para nosso acampamento. Paulo conseguiu um banho quente para mim e ali acampamos. Fomos em companhia do Paulo Simões até a Estação Pocinho para pegar o carro dele que foi deixado lá, pois na correria da partida esquecemos de combinar que a Rute e o Mota levassem o carro até o acampamento. Como iríamos dormir perto da Estação do Vesúvio, Paulo Simões pensou que se, deixassem o carro dele em Pocinho, pegaria o comboio, que aqui no Brasil é chamado de trem, e buscaria o carro. Chagamos na estação e vimos na tabela de horários que o trem passaria em vinte minutos. Fomos apreciando a paisagem, conversando sobre a aventura, sobre as diferenças de costumes e o tempo passou rápido. Pegamos o carro e seguimos para Vesúvio. Ao chegar tomei banho quente na casa dos funcionários da quinta e depois jantamos macarrão instantâneo que o Paulo Simões tinha trazido para nós. Ele armou a barraca rapidinho, ficamos conversando com o grupo e logo fomos dormir, pois todos estavam exaustos, mais felizes por vencermos a primeira etapa. 2º Dia – 29 de junho No segundo dia acordamos ás cinco horas da manhã com o galo do despertador do Nelson cantando. Desmontamos as barracas e tomamos café. Começamos a nossa jornada cedo para aproveitar ao máximo a manhã, deixando um percurso menor para ser remado durante à tarde, devido ao vento contra que começava às quatorze horas. A paisagem era de muitas quintas, pedras e pontes. Em toda foz de rio havia uma ponte. O trem também passava a cada hora e acompanhava nossa travessia. Entrava nos túneis construídos na rocha, parecia que estávamos em uma maquete, pois me lembrava da grande maquete que vimos construir para o III Fórum das Águas do Rio Doce, representando a estrada de ferro do rio Doce e as várias locomotivas entrando e saindo dos túneis. O condutor ao nos ver no rio nos cumprimentava com a sua buzina. Começamos a entrar em uma área de montanhas de pedras. Tinha pedras que parecia que podia a qualquer momento rolar e cair no rio. Elas nos observavam caladinhas. Ali, naquele momento senti o peso do tempo naquele lugar. Estava frio e os raios de sol não adentravam naquele recanto. Ao nos aproximar da Barragem da Valeira nos deparamos com uma rocha talhada com alguns dizeres, sobre a construção da represa: “A Imperadora D. Maria Primeira demoliu o famoso rochedo que, fazendo aqui uma cachoeira inacessível, impossibilitava a navegação desde o princípio dos séculos. Durou a obra desde 1780 até 1791”. Chegamos vinte minutos adiantados. Não havia ninguém na barragem e Paulo subiu até o comando e não havia sinal dos funcionários da eclusa. Às 8:30 h, horário programado pela EDP para nossa eclusagem, chegou o carro da empresa e logo que o funcionário o viu, perguntou se ele era o Paulo e disse que poderia voltar para o caiaque que já iriam abrir para nossa passagem. Mais uma emoção, Valeira é bem mais alta que Pocinho, e quando suas portas se abriram, um barulho de ranger do metal deixou o ambiente frio e úmido bem amedrontador. Após a passagem pela eclusa aproveitamos novamente a correnteza e avançamos. Remamos até chegar a estação doTua para tomar café. Nossos companheiros não agüentavam ficar sem um cafezinho, parecia que era o combustível deles. Logo depois remamos até Pinhão onde paramos para o nosso almoço. O local era muito bonito, perto de um dos hotéis mais chiques de Portugal, segundo os gajos. A biruta no porto já mostrava o vento entrando, e todos já se preparavam psicologicamente para o que viria a seguir. Almoçamos juntos e demos boas risadas com os casos de Paulo e Nelson. Novamente saímos para continuar nossa jornada. Aquelas águas já eram conhecidas pelos rapazes. Os pais do Nelson moravam nas proximidades e nos aguardavam para nos oferecer uma dose de vinho do Porto. Após o encontro tivemos que remar muito para chegar até a próxima barragem Bagauste a tempo para a abertura da eclusa. Não foi fácil, mais chegamos a tempo. Paulo Simões terminou sua travessia ali, pois tinha compromisso nos próximos dois dias e para terminar o percurso do segundo dia, Rute entrou para remar com Nelson e sentir a emoção da eclusa. Depois que duas lanchas com espanhóis entraram, nós nos juntamos a eles que fizeram uma farra danada com a gente. Ficaram felizes de ver brasileiros no Rio Douro e colocaram até um sambinha para nós ouvirmos. Era um tal de passar bebida para lá e para cá... Foi uma farra só!!! Após a saída pegamos uma ótima correnteza e nos dirigimos para Peso da Régua onde íamos pernoitar. Dessa vez no apartamento de Nelson. Em Peso da Régua passamos por três pontes muito lindas. O carro do Nelson já estava ali para nos levar até seu apartamento em Vila Real. Tomamos um banho quente e fomos ao shopping jantar. 3º Dia – 30 de junho No terceiro dia acordamos cedo para dar continuidade a nossa maratona. Mota, marido de Rute, tornou-se o parceiro de remada de Nelson. A rapaziada partiu cantando. A manhã estava muito fria e com bastante nevoeiro. Parecia que o dia não estava com bom humor. Fizemos uma parada em uma praia para relaxar o corpo e os gajos, para não perderem o costume, aproveitaram para ir a um café próximo. Continuando, começamos a sentir o vento que nesse dia resolveu dar as caras mais cedo. Por volta de oito horas o vento entrou fazendo muitas ondulações na água. Fui obrigada a colocar a capa de chuva, pois as remadas de Paulo faziam respingar água em mim. Cheguei a ficar estressada por causa das ondulações e os barcos que passavam com turistas fazendo ondas um pouco maiores e que davam impressão que o caiaque ia virar. Nossos parceiros adoravam as ondas e aproveitavam para surfar, que é o que eles gostam realmente de fazer com caiaques. De repente vários jet skis começaram a subir o rio. Eram muitos mesmo, dezenas. Imagino que iriam para algum encontro de apaixonados pelo esporte. Embarcações grandes vinham atrás. Com certeza tinham acabado de passar pela eclusa. Continuamos a remar contra o vento, o tempo passava e tínhamos medo de não chegar a tempo. Felizmente chegamos, e o melhor, adiantados. Aproveitamos para fazer um lanche e tivemos que esperar a eclusa se encher para subir com embarcações. De repente ela se abre e sai um grande barco de cruzeiro. Nos preparamos para entrar quando outro grande barco começou também a sair. Nem acreditamos que ali dentro poderia ter duas embarcações daquele porte. Finalmente entramos. A Represa Carrapatelo é uma das maiores, ou melhor, uma das maiores do mundo, com mais de 35 metros de altura. Ali, foi uma emoção danada. Haja coração e como diz minha mãe: aonde fui amarrar minha égua. Quando saímos pegamos uma boa correnteza e tivemos que remar muito ainda para chegar no ponto combinado. O vento estava muito forte, provocando grande stress no corpo. Pensei que no outro dia não teria mais forças. Finalmente chegamos no ponto para pernoitar em Escamarão. Logo depois chegou o Raul com a esposa e filha, juntamente com Rute e sua filhinha. Fizeram um churrasco caprichado com lingüiças que a galera saboreou com pão. Beberam vinho, comeram cerejas. Eu e Paulo comemos um macarrão instantâneo com pão. Nelson começou a contar piadas de freiras... Coitadinhas!!! Não desejo que uma freira caia nas mãos de Nelson. Passada a farra fomos dormir... Claro que depois do meu banhozinho quente que Paulo conseguiu em uma casa da cidade. Custei a pegar no sono. De madrugada começou uma festa em algum lugar próximo e juntamente com ela, uma chuvinha fina começou a cair. O galo do Nelson cantou e lá fomos nós para as águas do Rio Douro. 4º Dia – 1 de julho Até que enfim, o quarto e último dia. Eu consegui levantar animada, estava firme como diria o meu avô. Começamos a desmontar as barracas, fizemos nosso lanche e mãos aos remos, ou melhor, mãos às pagaias!!! Fazia um frio danado, mas via-se que seria um dia melhor que o anterior, estava sereno. No caminho vimos alguns grandes barcos que dragam a areia do fundo do rio. Passamos por uma ponte em Entre Rios que caiu e com ela um autocarro cheio de turistas que estavam indo ver as amendoeiras em flor. O acidente ocorreu em 2001 durante uma grande cheia do Douro. Mota nos contou um pouquinho da história. O lugar foi marcado com uma capela. Logo depois, numa praia na margem esquerda tinha um pessoal acampado e Nelson para sacanear soprou sua corneta que ecoou longe, o povo começou a sair das barracas e demos boas risadas. Foi divertido. Em Melres entrou no grupo Raul e Filipe que nos acompanharam no restante desta última etapa da travessia. Estávamos nos aproximando da barragem Crestuma e aproveitamos para fazer uma parada para um café. Um lindo cão branco apareceu e aproveitei para brincar um pouco. Adoro cães. Realmente estava um dia muito bom, acho que por ser o último dia, estávamos mais à vontade, mas sentia no grupo um certo sentimento de despedida, de missão quase cumprida. Sabe quando atingimos um objetivo e vêm aquelas sensações de vazio? Acho que era esse o sentimento. Precisávamos de mais um desafio para preencher o vazio. A vida é assim. Após o café seguimos até a barragem Crestuma. Os meus pais juntamente com meu tio nos aguardavam depois da barragem para que pudessem curtir os momentos finais juntamente com a gente. Eu estava muito feliz por isso e não via a hora de vê-los. Ao chegar à barragem, um senhor simpático nos aguardava para a abertura da eclusa. Gostaria de frisar que todos que nos receberam nas eclusas foram muito simpáticos e estavam curtindo conosco a travessia. Dentro da eclusa as mesmas emoções de sempre. Ficávamos sempre na expectativa em relação ao que veríamos após a abertura das portas. Mais uma vez aproveitamos a correnteza e ganhamos velocidade. Logo a frente nos deparamos com uma turma de atletas do clube de canoagem que treinavam no rio e mais a frente avistávamos o barco do meu tio. Para minha surpresa minha tia Alice veio nos prestigiar, logo ela que nunca teve coragem de entrar no barco. Paramos numa prainha para almoçar. Meus pais não acreditavam em nossa façanha. Eu disse para ele que pensei que não agüentaria por causa do dia anterior e ele replicou: - Se você desistisse, perderia a batalha. Essas palavras eu nunca esquecerei e servirão de lição por toda a minha vida. Após o almoço continuamos rumo à foz, aproveitando um ventinho atípico que nos empurrava a favor de nosso destino. Desenvolvemos uma boa velocidade. Já podíamos ver sinais da cidade do Porto. E a cada pagaiada começávamos a desfrutar de seu cheiro, suas pontes, os barcos Rabelos, suas construções antigas com varais na janela, sua música, ou melhor, o eterno fado que ecoava de algum clube ou bar. Já sentíamos a influência do mar. Marco nos falava os nomes das pontes, Filipe nos mostrava o prédio onde trabalhava, todos contavam sobre sua relação com o Porto. Apesar de toda essa maravilha, tenho que ser sincera, não via a hora de chegar. Eu estava realmente muito cansada. O vento contra nos exigia muito. Um helicóptero sobrevoava o rio com turistas para conhecer a cidade. Mais a frente um grupo de jangadas desfilavam pelo rio. Queria saber aonde iríamos parar e eles diziam que eram logo após a ponte. Passava uma, passava duas, passava três e nada de parar. Em um momento, percebi que Paulo estava a chorar. Conversei com ele que me disse estar chorando de tanta emoção, por Deus ter permitido que o projeto tivesse sido realizado com tanto êxito, com a ajuda de tanta gente boa. Já estávamos quase chegando ao mar. Ali o rio era só ondas e eu comecei a curtir. Até que encontramos um pequeno porto onde resolvemos parar. Ai, eu estava uma manteiga. Feliz! Conseguimos realizar a nossa travessia! Todos estavam felizes, realizados. Pais, esposas, filhos, pessoas comuns, todos estavam ali para nos receber com carinho. Um grupo de crianças de uns dez anos chegou até mim e perguntou: - A senhora veio remando desde a Espanha? Respondi que sim e um deles replicou admirado... - A senhora é valente! Mulher dos tomates! Eu caí no riso. O Mota já havia me dito que mulher dos tomates é uma expressão que se refere a uma mulher valente, tipo Maria homem. Foi muito engraçado. Paulo Simões veio nos encontrar na chegada. Os tios do Nelson vieram recebê-lo. A esposa do Jonas e a Rute, esposa do Mota e irmã do Marco. Tiramos fotos e nos despedimos, combinando de nos encontrar para um jantar de confraternização e iniciarmos a organização para que todos possam ir em 2008 ao Brasil para descermos o rio Doce.
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